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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Cenas #5

Ter e Não Ter, de Howard Hawks (1944)

Ela entra no quarto dele e pede-lhe lume. Começa assim o primeiro encontro entre Lauren Bacall e 'Bogey' em «Ter e Não Ter», obra-prima de Howard Hawks por vezes comparada (erroneamente) a «Casablanca», de Michael Curtiz, uma outra história de expatriados em terra de ninguém durante a II Guerra Mundial. Podia ter ido buscar a cena do assobio recordada por João Bénard da Costa como «um dos melhores diálogos da história do cinema» («You know you don't have to act with me, Steve. You don't have to say anything, and you don't have to do anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and... blow.»), mas esta parece-me a que melhor espelha a relação amor-ódio (mais amor do que ódio, como sempre nestas coisas) das personagens centrais do filme. E entre trocas de cigarros e lume, nasceu um dos míticos casais de Hollywood, que iria contracenar ainda em mais três filmes: «À Beira do Abismo» («The Big Sleep», de Howard Hawks, 1946), «O Prisioneiro do Passado» («Dark Passage», de Delmer Daves, 1947) e «Paixões em Fúria» («Key Largo», de John Huston, 1948). Mas isso são contas de outro rosário. Aqui celebra-se a magia de «Ter e Não Ter» e as trocas de lume entre Bacall e Bogart. E em tempos politicamente correctos pensamos para com os nossos botões: como seria este belo filme se não houvessem os cigarros?

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Frankenstein em Hoyuelos

«O Espírito da Colmeia» é um dos mais belos filmes de sempre. Escolher uma só cena do fabuloso filme de estreia de Victor Erice é bastante inglório, mas como este é um blogue de Cinema, parece adequado partilhar a cena da projecção de «Frankenstein» numa sala improvisada na aldeia de Hoyuelos. Muitos são os filmes que conseguem captar o fascínio exercido pela Sétima Arte nos espectadores, mas poucos, raros diria mesmo, conseguem algo tão sublime como esta bela sequência de uma grande pérola do Cinema espanhol. E ter a oportunidade de ver uma tamanha obra prima apresentada pelo seu autor na Cinemateca foi qualquer coisa de extraordinário.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Sugestões para o IndieLisboa 2013: dia 26 de Abril


Dia 26 de Abril, 15h30, Cinemateca (Sala Dr. Félix Ribeiro)
«Os Carabineiros», de Jean-Luc Godard
Uma das particularidades da edição deste ano do Indie surge na secção Director's Cut, dedicada a filmes sobre Cinema ou a restaurações de obras chave da Sétima Arte. Em 2013 esta secção do festival, uma vez mais em parceria com a Cinemateca, coloca as escolhas da programação do festival em espelho com alguns filmes clássicos. Um deles é «Os Carabineiros, um dos primeiros filmes de Jean-Luc Godard, realizado em 1963, um filme absurdo sobre o mais absurdo dos temas: a Guerra. A obra de Godard passa em espelho com «Jean-Louis Comolli, filmer pour voir!», um retrato de Jean-Louis Comolli, cineasta e actor francês, proveniente da 'escola' dos Cahiers do Cinema, em formato documentário assinado por Ginette Lavigne.


Dia 26 de Abril, 21h45, Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira)
«Sightseers», de Ben Wheatley
«Sightseers» chega ao Indie depois de ter sido bem recebido um pouco por todo o lado no ano passado, tanto a nível da crítica, como em alguns festivais por onde passou, por isso tem gerado algumas expectativas. Esta comédia negra acompanha a viagem de um casal de caravanistas por terras rurais britânicas que acaba por se revelar algo mais do que dois simples amantes da natureza à procura de um pouco de calma e respeito por parte dos outros viajantes. O par é interpretado por dois dos argumentistas do filme, os comediantes Steve Oram e Alice Lowe. (sinopse e trailer)

sábado, 23 de março de 2013

Hoje é um bom dia para regressar ao Oeste de Sergio Leone

Hoje, às 21h30, oportunidade a não perder para ver em sala, na Cinemateca, um dos melhores filmes de sempre, cortesia de um senhor chamado Sergio Leone. Para abrir o apetite deixo-vos os primeiros dois minutos de uma magistral sequência de 14 minutos. Infelizmente não consegui encontrar no YouTube a sequência completa, mas garanto-vos que não serão defraudados os que quiserem ver essa sequência. Só por ela já vale todo o filme.

sábado, 16 de março de 2013

Coisas que não se fazem

 «Uma Mulher é Uma Mulher», de Jean-Luc Godard
«A Paixão de Joana D'Arc», de Carl Theodor Dreyer

Obrigarem-nos a escolher entre Godard e Dreyer. Nota de agenda: «Uma Mulher é Uma Mulher», de Jean-Luc Godard, e «A Paixão de Joana D'Arc», de Carl Theodor Dreyer, hoje na Cinemateca, às 19h00 e 19h30, respectivamente.

domingo, 16 de setembro de 2012

O Túmulo Vazio, de Robert Wise (1945)


Para a maioria dos cinéfilos o nome de Robert Wise talvez seja mais conhecido por filmes como «Música no Coração» ou «Amor Sem Barreiras» («West Side Story»). Mas a carreira de Wise foi muito além destes dois clássicos e andou pelos mais variados géneros, incluindo o terror. Um desses exemplos é «O Túmulo Vazio», o seu terceiro filme, produzido por Val Lewton, um lendário produtor de filmes de série B em Hollywood, daqueles que gostava de controlar os seus filmes sem pedir licença aos realizadores, que foi recentemente 'homenageado' por Edgar Pêra no seu último filme, «O Barão». Neste filme, baseado num conto de Robert Louis Stevenson, a história centra-se num negócio obscuro, mas de certa forma comum, na Edimburgo do século XIX: a venda de cadáveres para as universidades de Medicina, onde os corpos que não eram reclamados nas morgues iam parar aos auditórios.

Com a escassez de matéria-prima começaram a surgir formas alternativas de encontrar cadáveres e o caso da dupla Burke e Hare (dois destes comerciantes que começaram a matar pessoas para venderem os corpos às universidades e mais tarde acabaram condenados à morte - o caso é relatado na comédia negra «Burke and Hare», o último filme realizado por John Landis e que passou no ano passado no Motelx) terá servido de base a «O Túmulo Vazio». Se no filme de Landis é a própria dupla a protagonizar o filme, no caso da obra de Robert Wise os protagonistas são o Dr. MacFarlane (Henry Danniel), um professor de Medicina, e John Gray (Boris Karloff), o seu fornecedor de cadáveres. Esta relação irá atravessar todo o filme num arco narrativo tão simples como eficaz, o suficiente para conseguir atingir o objectivo: contar uma boa história com poucos meios.

Estes poucos meios permitem criar cenários, tão ao gosto dos filmes de série B, que nos remetem para ambientes obscuros, desde pequenas ruelas pouco recomendáveis a salas onde são guardados cadáveres onde aparentemente a luz não se sente à vontade. A forma como estes cenários e as luzes são exploradas, basta ver a brutal sequência (em todos os sentidos) da morte de uma das vítimas de Gray, que não mostra o que se passa, mas ao mesmo tempo é um não mostrar que acaba por dizer tudo, ajuda bastante a levar-nos até à Edimburgo do século XIX.

Depois temos ainda direito à presença de dois 'monstros' do cinema de terror: Boris Karloff, naquela que é considerada por muitos como uma das suas melhores interpretações, e o seu grande rival Bela Lugosi, que não tem tanto destaque no filme. Apesar de ter a sua importância, o seu papel acaba por ser mínimo. Mas, reza a lenda, este foi bastante cortado na sala de montagem.

Em suma, este filme de Robert Wise tem vários atractivos que o tornam bastante recomendável: não só é uma obra muito diferente dos filmes mais conhecidos do cineasta, mas também um bom filme de terror, que conta com a presença de um dos seus maiores nomes, Boris Karloff, também ele num registo bastante diferente do seu mais conhecido Frankenstein. Só é pena não ter havido mais espaço para Bela Lugosi, com quem nunca terá tido uma grande relação, apesar de ambos terem participado juntos noutros filmes.

Classificação: 4/5

domingo, 2 de setembro de 2012

A Grande Parada, de King Vidor (1925)

(texto com spoilers)
Considerado como um dos grandes sucessos de público no período mudo, «A Grande Parada» é também um dos pontos altos da obra de King Vidor, realizador que quis fazer com este filme algo que ficasse na memória, tal como acontecera anteriormente com «O Nascimento de uma Nação», de Griffith. O filme é baseado numa história de Laurence Stallings, sobre a sua experiência durante a I Grande Guerra, e é precisamente este conflito (a grande parada do título) que serve de pano de fundo a esta bela história de amor e amizade em tempos de guerra, centrada na personagem de James Apperson (John Gilbert), um jovem oriundo de uma família rica que se alista no exército quando os EUA entram no conflito e vai parar a uma pequena localidade francesa, onde trava conhecimento com Melisande (Renée Adorée), por quem acaba por se apaixonar, apesar de ter uma noiva à espera. A acompanhá-lo está a dupla Bull (Tom O'Brien) e Slim (Karl Dane), que serão os dois camaradas de armas de James e o par que protagoniza as cenas mais cómicas de «A Grande Parada».

Mas se o conflito que marcou o início do século passado é a base para o filme, sobretudo na segunda metade, quando os três soldados partem para o campo de batalha (e as sequências de batalha estão muito bem conseguidas), são as relações entre as quatro personagens, seja a relação de James com Melisande ou a amizade dos três camaradas de armas, que fazem de «A Grande Parada» um belo filme, daqueles que dá vontade de ver e rever mais tarde. Cenas como a despedida do casal ou a forma como é filmada a morte no campo de batalha são belíssimas. As sequências finais, em plena guerra de trincheiras e quando James se questiona do que estão tantos jovens a fazer ali, a lutar porquê, terão levado muitos a a considerar este filme como um dos primeiros filmes anti-guerra da História do Cinema, mas é na relação entre James e Melisande que está toda a força de «A Grande Parada».

O filme foi a escolha da Cinemateca Portuguesa para o regresso às actividades em Setembro e contou com a presença do pianista canadiano Gabriel Thibaudeau, considerado um dos maiores especialistas em composições para Cinema Mudo, que acompanhou com piano ao vivo a projecção. O resultado tornou este regresso aos serões da Barata Salgueiro ainda mais especial.

King Vidor vai voltar a estar presente na Cinemateca Portuguesa no próximo dia 29 de Setembro, às 19h30, com outro filme bastante recomendável: «A Multidão».

Classificação: 5/5