Depois de «Le Fils de l'autre», o conflito israelo-palestiniano volta a ser o pano de fundo de um outro filme apresentado na edição deste ano da Festa do Cinema Francês. «Le cochon de Gaza» é uma daquelas comédias com uma boa premissa mas cujo resultado final acaba por não se cumprir de todo. Neste caso, o filme conta-nos a história de um pobre pescador palestiniano que 'pesca' um porco, animal impuro para os muçulmanos, e não sabe o que fazer para se ver livre do animal, envolvendo-se em inúmeras peripécias e episódios caricatos que envolvem a comunidade local, desde os colonos aos militares israelitas, passando por um grupo de terroristas ou as autoridades locais.
Através da história do pescador Jafaar (Sasson Gabai), Sylvain Estibal, que assina aqui a sua primeira obra, faz-nos um retrato demasiado leve dos problemas que dividem Israel e a Palestina, representados muitas vezes sob a forma de clichés: uma comunidade de colonos que estão prestes a ser expulsos, postos fronteiriços que ficam literalmente dentro da casa de palestinianos, polícias corruptos, entre outros exemplos, são todos retratados em «Le cochon de Gaza». Ou seja, nada que já não tenha sido visto noutros filmes ou nos noticiários do dia-a-dia.
Mesmo que tenha boas intenções, e o final do filme (um pouco escusado e forçado, a meu ver) é a melhor prova disso, a estreia de Sylvain Estibal nunca vai mais além de um filme simpático, que pretende utilizar os mecanismos da comédia para mostrar o que se passa numa comunidade dividida por questões tão complicadas. Conseguimos simpatizar com a personagem de Jafaar e a tarefa que tem em mãos, mas há demasiadas falhas, tanto a nível de argumento como técnicos (o som parece de um filme dobrado, por exemplo), para conseguir gostar de «Le cochon de Gaza». Com muito menos espalhafato, Elia Suleiman fez há anos uma das melhores comédias sobre este tema, sem deixar de ser tão absurda: «Intervenção Divina».
Classificação: 2/5
«Le cochon de Gaza» vai passar hoje, dia 12 de Outubro, às 19h30 horas, no Cinema São Jorge, em Lisboa, e de novo no dia 13, às 23h00 no Fórum Romeu Correia, em Almada, no dia 25 às 18h30, no Rivoli Teatro Municipal, no Porto, e no dia 29 de Outubro, às 23h30 horas, no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra.
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sexta-feira, 12 de outubro de 2012
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
7 Dias em Havana, de Benicio Del Toro, Pablo Trapero, Julio Medem, Elia Suleiman, Gaspar Noé, Juan Carlos Tabío e Laurent Cantet (2012)
Nos últimos anos os filmes colectivos, compostos por curtos sketches realizados por diferentes cineastas, têm vindo a ser recuperados. Apesar de este género, se assim se pode chamar, remontar ainda ao período do mudo, terá sido nos anos 1950/1960 na Europa que teve o seu auge. O sucesso de «Paris Je T'Aime» em 2006, quando um conjunto de cerca de 20 realizadores foi convidado a criar uma curta para cada um dos bairros da capital francesa, terá contribuído para a exploração de um novo filão, que já seguiu viagem para Nova Iorque e, segundo as previsões, tem a próxima escala marcada para Xangai.
«7 Dias em Havana» não faz parte deste projecto amoroso, mas na sua génese a ideia é a mesma: sete realizadores, uma cidade como cenário (Havana), sete histórias diferentes, algumas que se cruzam, outras independentes. São os sete dias do título que correspondem a cada uma das curtas-metragens, realizadas por Benicio Del Toro, Pablo Trapero, Julio Medem, Elia Suleiman, Gaspar Noé, Juan Carlos Tabío e Laurent Cantet.
Um dos principais problemas neste tipo de produções é conseguir um resultado final coeso, mesmo quando todos os episódios são independentes, apesar de esse não ser necessariamente o principal objectivo destes filmes. No fundo estamos perante diferentes olhares ou sensibilidades e cada realizador tem a sua própria forma de filmar. Neste caso há uma mistura: dois dos episódios complementam-se, mas os restantes podem ser vistos de forma isolada, apesar de pontualmente surgirem personagens comuns.
Infelizmente, «7 Dias em Havana» acaba por não funcionar, nem como um todo, nem como a soma das várias partes. Temos cinema mais autoral, onde reconhecemos a marca de um determinado realizador (Gaspar Noé e Elia Suleiman), e filmes mais simples, como o belo episódio de Pablo Trapero que acompanha as desventuras de um Emir Kusturica (o próprio) completamente perdido em Havana e às voltas com problemas conjugais ou o segmento inicial, uma curiosa curta de Benicio Del Toro sobre um estudante de Cinema que se perde na noite da capital cubana. Este episódio falha por ser demasiado previsível, apesar de ter algumas curiosas referências que serão do agrado do cinéfilo mais atento aos pequenos pormenores. E depois temos segmentos que roçam as novelas, como é o caso do episódio realizado por Julio Medem, que chega a tornar-se cansativo de assistir, tal é o excessivo recurso aos clichés deste tipo de programas, tão ao estilo da América Latina.
Em suma, onde «7 Dias em Havana» falha é no facto de nenhum dos episódios sobressair. Mesmo a proposta de Elia Suleiman, que tanto prometia quando começa (e aquele início prova que o palestiniano é um digno sucessor de gente como Buster Keaton ou Jacques Tati), fica a perder por ser claramente um objectivo desenquadrado do resto do filme. Fora isso, podemos encontrar neste filme colectivo muito do que se espera de um filme passado em Havana: muito rum, música latina e as tradições da ilha dos irmãos Castro, tanto na vertente católica como na vertente pagã.
Classificação: 3/5
«7 Dias em Havana» não faz parte deste projecto amoroso, mas na sua génese a ideia é a mesma: sete realizadores, uma cidade como cenário (Havana), sete histórias diferentes, algumas que se cruzam, outras independentes. São os sete dias do título que correspondem a cada uma das curtas-metragens, realizadas por Benicio Del Toro, Pablo Trapero, Julio Medem, Elia Suleiman, Gaspar Noé, Juan Carlos Tabío e Laurent Cantet.
Um dos principais problemas neste tipo de produções é conseguir um resultado final coeso, mesmo quando todos os episódios são independentes, apesar de esse não ser necessariamente o principal objectivo destes filmes. No fundo estamos perante diferentes olhares ou sensibilidades e cada realizador tem a sua própria forma de filmar. Neste caso há uma mistura: dois dos episódios complementam-se, mas os restantes podem ser vistos de forma isolada, apesar de pontualmente surgirem personagens comuns.
Infelizmente, «7 Dias em Havana» acaba por não funcionar, nem como um todo, nem como a soma das várias partes. Temos cinema mais autoral, onde reconhecemos a marca de um determinado realizador (Gaspar Noé e Elia Suleiman), e filmes mais simples, como o belo episódio de Pablo Trapero que acompanha as desventuras de um Emir Kusturica (o próprio) completamente perdido em Havana e às voltas com problemas conjugais ou o segmento inicial, uma curiosa curta de Benicio Del Toro sobre um estudante de Cinema que se perde na noite da capital cubana. Este episódio falha por ser demasiado previsível, apesar de ter algumas curiosas referências que serão do agrado do cinéfilo mais atento aos pequenos pormenores. E depois temos segmentos que roçam as novelas, como é o caso do episódio realizado por Julio Medem, que chega a tornar-se cansativo de assistir, tal é o excessivo recurso aos clichés deste tipo de programas, tão ao estilo da América Latina.
Em suma, onde «7 Dias em Havana» falha é no facto de nenhum dos episódios sobressair. Mesmo a proposta de Elia Suleiman, que tanto prometia quando começa (e aquele início prova que o palestiniano é um digno sucessor de gente como Buster Keaton ou Jacques Tati), fica a perder por ser claramente um objectivo desenquadrado do resto do filme. Fora isso, podemos encontrar neste filme colectivo muito do que se espera de um filme passado em Havana: muito rum, música latina e as tradições da ilha dos irmãos Castro, tanto na vertente católica como na vertente pagã.
Classificação: 3/5
Etiquetas:
Benicio Del Toro,
Crítica,
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