«The entire conventional approach (as exemplified by even the best American and British films) is wrong. Because the conventional approach tells you that the best way to tell a story is to leave out all except those elements which are directly related to the story, while the master's work clearly indicates that if your theme is strong and simple, then you can include a hundred little apparently irrelevant details which, instead of obscuring the theme, only help to intensify it by contrast, and in addition create the illusion of actuality better.»
Satyajit Ray em 1950, após uma visita a Londres onde 'aprendeu' Cinema durante seis meses a ver filmes. (citação tirada dos extras de uma edição do DVD de «Pather Panchali» («O Lamento da Vereda», título português) e também disponível neste artigo centrado no filme «The Chess Players» e na carreira do realizador indiano)
sábado, 13 de julho de 2013
terça-feira, 9 de julho de 2013
Boudu, Boudu, para onde vais tu?
Há filmes que nos marcam, seja porque razão for. Mais recentemente um dos que teve esse efeito no autor destas linhas (que por estes dias tem andado com falta de tempo para actualizar este espaço) foi «Boudu Querido», uma pérola de Jean Renoir protagonizada por um não menos excelente Michel Simon, em mais uma das suas magníficas criações. E vá-se lá saber porquê este foi um dos títulos de Renoir (cineasta que tenho tido o prazer de vir a descobrir aos poucos na Barata Salgueiro, que mesmo em época de agonia ainda nos dá alguns tesouros a ver) que já andava para ver há tanto tempo e tardou em ser visionado, apesar da insistência de um caro amigo que se fartou de me falar neste filme. Mas, como diz o ditado, vale mais tarde do que nunca. E, verdade seja dita, «Boudu Querido» acabou por ser um dos filmes que mais me marcou ultimamente. Tanto que me deu para escrever algumas linhas sobre o filme. Não farão inteira justiça ao filme, pois não me sinto à altura de conseguir escrever algo de jeito sobre tamanha obra-prima (nem mesmo sobre qualquer obra de Renoir, já agora) à espera de ser descoberta por quem ainda não o fez. E se conseguir fazer com que alguém vá a correr ver esta preciosidade depois de ler este post, já me dou por contente.
Não sei de onde vem o fascínio pela personagem de Boudu, um vagabundo parisiense com uma pequena costela de anarca que é salvo do suicídio por um livreiro de classe média que resolve intervir quando o anti-herói desta história se resolve atirar ao Sena. Mas muito provavelmente vem do contexto pessoal (e quiçá nacional, pois como diz o outro, isto no fundo anda tudo ligado) que tenho vivido nestes últimos tempos e que me fez pensar que no fundo, no fundo, o Boudu é que tinha razão. E se foi salvo das águas para não morrer (e neste aspecto o título original - «Boudu Sauvé Des Eaux» - acaba por ser muito mais adequado, ao contrário da tradução para português, algo infeliz, mas não de todo incorrecta), às águas irá tornar para se salvar da 'vida mundana' que lhe querem oferecer (ou impingir, se preferirmos em português correcto) quando, através de um golpe de fortuna, consegue ficar rico. Mas as riquezas nada dizem a Boudu, que antes prefere a companhia dos animais à dos homens, mais interessados na fortuna monetária de Boudu do que na sua pessoa.
Mas mais não digo, pois acho que o melhor é mesmo fazerem um favor a vocês próprios e seguirem este link para descobrir o magnífico Boudu. Não é a melhor forma de o fazer, mas à falta de melhor, não é má de todo. E a versão que aqui está é magnífica, pois alguém teve a excelente ideia de colocar no YouTube uma versão restaurada do filme. Agora, como diria outro Grande (assim mesmo, com G maiúsculo) do Cinema, apetece também lembrar uma bela frase de «Recordações da Casa Amarela» a propósito da personagem de Boudu: «Vai e dá-lhes que fazer».
Não sei de onde vem o fascínio pela personagem de Boudu, um vagabundo parisiense com uma pequena costela de anarca que é salvo do suicídio por um livreiro de classe média que resolve intervir quando o anti-herói desta história se resolve atirar ao Sena. Mas muito provavelmente vem do contexto pessoal (e quiçá nacional, pois como diz o outro, isto no fundo anda tudo ligado) que tenho vivido nestes últimos tempos e que me fez pensar que no fundo, no fundo, o Boudu é que tinha razão. E se foi salvo das águas para não morrer (e neste aspecto o título original - «Boudu Sauvé Des Eaux» - acaba por ser muito mais adequado, ao contrário da tradução para português, algo infeliz, mas não de todo incorrecta), às águas irá tornar para se salvar da 'vida mundana' que lhe querem oferecer (ou impingir, se preferirmos em português correcto) quando, através de um golpe de fortuna, consegue ficar rico. Mas as riquezas nada dizem a Boudu, que antes prefere a companhia dos animais à dos homens, mais interessados na fortuna monetária de Boudu do que na sua pessoa.
Mas mais não digo, pois acho que o melhor é mesmo fazerem um favor a vocês próprios e seguirem este link para descobrir o magnífico Boudu. Não é a melhor forma de o fazer, mas à falta de melhor, não é má de todo. E a versão que aqui está é magnífica, pois alguém teve a excelente ideia de colocar no YouTube uma versão restaurada do filme. Agora, como diria outro Grande (assim mesmo, com G maiúsculo) do Cinema, apetece também lembrar uma bela frase de «Recordações da Casa Amarela» a propósito da personagem de Boudu: «Vai e dá-lhes que fazer».
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Duetos Cinéfilos #14
Música: Disorder (Joy Division)
Filme: 2001: Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick)
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segunda-feira, 17 de junho de 2013
quinta-feira, 13 de junho de 2013
O digital é muito bonito...
...mas a película há-de ser sempre a película. Seja como for, fica uma sugestão para este fim-de-semana: aproveitar a onda de reposições de clássicos para ver (ou rever) no grande ecrã o filme «Até à Eternidade», de Fred Zinnemann. Não é o «Lawrence da Arábia» ou o «Vertigo», mas não deixa de ser um filme que vale a pena ver. E muito provavelmente o melhor no conjunto de estreias desta semana (o que diz muito sobre o estado do cinema nos dias de hoje, mas isso são contas para outro rosário). Para abrir o apetite fica uma das cenas mais marcantes do filme.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Leitura recomendada: o trabalho de arte de «Blade Runner»
Para os fãs da ficção científica mais séria «Blade Runner - Perigo Iminente» é considerado como um dos grandes clássicos do género. Realizado em 1982 por Ridley Scott a partir de uma novela de Philip K. Dick («Do Androids Dream of Electric Sheep?»), é um dos grandes filmes de culto da década de 1980, de tal forma que há várias versões do filme, todas reunidas em edições especiais do filme que foram saindo ao longo dos últimos anos. Na altura da estreia da primeira versão chegou aos escaparates um pequeno livrinho com imagens do trabalho de arte do filme, onde se pode ver a génese do projecto de Ridley Scott antes de chegar ao grande ecrã. Apesar de ser difícil de encontrar a versão em papel, alguém se lembrou de colocar on-line uma versão digital de «Blade Runner Sketchbook», que pode ser visualizada aqui. Um pequeno brinde para os fãs de um dos melhores filmes de ficção científica de sempre e de toda a obra de Ridley Scott.
Via Open Culture
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quarta-feira, 5 de junho de 2013
Cenas #2
A Coleccionadora, de Eric Rohmer
Com o calor a chegar, vale a pena recordar um bom filme de Eric Rohmer, um dos realizadores que melhor soube filmar os mistérios do amor.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
A Palma das palmas, segundo o CCOP
Para aproveitar a vaga do Festival de Cannes, o Círculo de Críticos Online Portugueses (CCOP) acaba de divulgar os resultados de um top especial dedicado a um dos principais festivais de cinema do mundo. Com o objectivo de escolher a melhor Palma de Ouro atribuída durante o certame, os membros do CCOP foram convidados a votar nos filmes que obtiveram tal distinção. E o filme melhor classificado foi...«Apocalipse Now», de Francis Ford Coppola, o épico sobre a Guerra do Vietname que marcou a carreira do cineasta, para o bem e para o mal, que alcançou uma média de 9,60 (em 10). O segundo lugar deste top foi para um filme assinado por um outro realizador norte-americano da mesma geração, Martin Scorsese, por «Taxi Driver», Palma de Ouro em 1976 (com uma média de 9,33 em 10). Na terceira posição, a fechar o pódio, «O Leopardo», de Luchino Visconti, com uma média de 9,17. Os restantes resultados podem ser consultados na íntegra aqui.
terça-feira, 28 de maio de 2013
Duetos Cinéfilos #13
Música: The White Lady Loves You More (Elliot Smith)
Filme: Rosetta (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
segunda-feira, 27 de maio de 2013
O Grande Gatsby, de Baz Luhrmann (2013)
É fácil embirrar com um filme como «O Grande Gatsby», a versão de Baz Luhrmann do clássico escrito por Francis Scott Fitzgerald considerado por muitos como um dos grandes livros sobre o período dos loucos anos 20 do século passado e uma das principais obras da literatura norte-americana. Tal como fizera com «Romeu e Julieta», o realizador australiano continua a dar a volta às regras do jogo e recria o material de origem à sua maneira, com um estilo bastante peculiar. Se na versão da peça de Shakespeare Luhrmann traz a tragédia do bardo inglês para os dias de hoje, desta vez a acção permanece no período dos anos 1920 originais, mas, como é apanágio do cineasta, com alguns elementos estranhos à tal época. Um desses elementos é a banda sonora, onde as loucas festas por onde andam as principais personagens de «O Grande Gatsby» deixam de ter a música de época, substituída por ritmos mais actuais, com algum pendor nos ritmos hip hop.
Baz Luhrmann já tinha feito algumas 'experiências' musicais anteriormente em «Moulin Rouge», mas nesse caso o estranho até se entranha. Em «O Grande Gatsby», pelo contrário, a banda sonora acaba por não funcionar de todo e tem o efeito contrário, provocando até algum efeito de distracção que não é sequer suficiente para esconder o que o filme é: um objecto oco, onde a revisitação da obra de Fitzgerald, mesmo que seja adaptada de forma bastante fiel, é uma pálida versão do original. Numa das sequências, a festa no apartamento de Nova Iorque onde Tom se encontra com a amante, chegamos mesmo a temer começar a ouvir os acordes de «Harlem Shake», um dos fenómenos virais mais recentes.
O resto é puro estilo Luhrmann: muita cor a invadir o ecrã por todos os lados (até percebemos que se pretenda enfatizar esse lado mais excêntrico da personagem de Gatsby e das suas loucas festas, mas a partir de certa altura começa a enjoar) e pouco se entra dentro das personagens que passam pelo universo da genial obra de Fitzgerald, onde estaria o grande desafio de adaptar um livro destes. E se há livros com personagens interessantes para explorar, logo a começar pela que dá título ao livro, «O Grande Gatsby» é um desses livros. Pena que nem Leonardo DiCaprio, que podia ter sido uma boa escolha para interpretar o papel de Gatsby, consiga uma interpretação à altura de outras que conseguiu recentemente, optando por um estilo demasiado exagerado para dar vida à personagem.
Em suma, se tivéssemos de escolher uma frase para definir «O Grande Gatsby» segundo Baz Luhrmann optaríamos pelo ditado popular «muita parra e pouca uva». Mas preferimos deixar um conselho de amigo: se tiver oportunidade leia o livro, a experiência será muito melhor.
Classificação: 2/5
Baz Luhrmann já tinha feito algumas 'experiências' musicais anteriormente em «Moulin Rouge», mas nesse caso o estranho até se entranha. Em «O Grande Gatsby», pelo contrário, a banda sonora acaba por não funcionar de todo e tem o efeito contrário, provocando até algum efeito de distracção que não é sequer suficiente para esconder o que o filme é: um objecto oco, onde a revisitação da obra de Fitzgerald, mesmo que seja adaptada de forma bastante fiel, é uma pálida versão do original. Numa das sequências, a festa no apartamento de Nova Iorque onde Tom se encontra com a amante, chegamos mesmo a temer começar a ouvir os acordes de «Harlem Shake», um dos fenómenos virais mais recentes.
O resto é puro estilo Luhrmann: muita cor a invadir o ecrã por todos os lados (até percebemos que se pretenda enfatizar esse lado mais excêntrico da personagem de Gatsby e das suas loucas festas, mas a partir de certa altura começa a enjoar) e pouco se entra dentro das personagens que passam pelo universo da genial obra de Fitzgerald, onde estaria o grande desafio de adaptar um livro destes. E se há livros com personagens interessantes para explorar, logo a começar pela que dá título ao livro, «O Grande Gatsby» é um desses livros. Pena que nem Leonardo DiCaprio, que podia ter sido uma boa escolha para interpretar o papel de Gatsby, consiga uma interpretação à altura de outras que conseguiu recentemente, optando por um estilo demasiado exagerado para dar vida à personagem.
Em suma, se tivéssemos de escolher uma frase para definir «O Grande Gatsby» segundo Baz Luhrmann optaríamos pelo ditado popular «muita parra e pouca uva». Mas preferimos deixar um conselho de amigo: se tiver oportunidade leia o livro, a experiência será muito melhor.
Classificação: 2/5
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Abril com novo líder no top anual do CCOP
Novas mexidas no top anual do Círculo de Críticos Online Portugueses (CCOP), com a entrada de «No», de Pablo Larrain, para o primeiro lugar da lista, destronando o anterior líder da tabela: «A Caça». Em Abril de 2013 os filmes preferidos dos membros do CCOP foram «No», com uma média de 8,43 (em 10), «Fausto», de Aleksandr Sokurov (com uma média de 7,40 em 10), e «Os Amantes Passageiros», o mais recente filme de Pedro Almodóvar (com uma média de 7,25). Destes três filmes, apenas os dois primeiros chegaram ao top anual. Além do filme chileno, que lidera o top, também o vencedor do Leão de Ouro na edição de 2011 do Festival de Cinema de Veneza chegou à tabela principal do CCOP, ocupando agora a nona posição. Os resultados completos do top de Abril do CCOP podem ser consultados aqui.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Um Planeta Solitário, de Julia Loktev (2011)
Com dois anos de atraso, depois de uma passagem pela edição de 2012 do IndieLisboa, chega às salas de cinema portuguesas «Um Planeta Solitário». Nesta segunda obra de Julia Loktev a relação de um jovem casal em viagem pela Geórgia, protagonizado por Hani Furstenberg e Gael García Bernal, é posta em causa depois de um encontro acidental com membros de uma comunidade local. A partir desse estranho incidente, que coloca em risco a vida dos dois sem que o guia que os acompanha possa fazer algo (e também nunca chegamos a saber bem o que se passa, pois a única personagem capaz de entender as intenções do grupo, o próprio guia, não revela o que eles disseram), o comportamento dos dois muda e a cumplicidade da relação deixa de estar presente, como se o par tivesse passado um ponto de não retorno.
«Um Planeta Solitário» parte de uma boa premissa e conta com uma realização competente de uma cineasta praticamente desconhecida, com apenas duas outras obras no currículo, uma das quais também chegou a passar pelo IndieLisboa há uns anos. Mas acaba por falhar quando podia dar um resultado melhor. Apesar da excelente química entre o par protagonista, a que se junta uma outra boa prestação de Bidzina Gujabidze, que interpreta o guia, o filme pouco mais é do que o vaguear das três personagens pelas montanhas georgianas, que custa a arrancar (apesar de muito andarem as personagens do filme), como se Julia Loktev quisesse enfatizar a força da paisagem perante a pequenez daqueles três viajantes. E os próprios dilemas que assolam as personagens, sobretudo a partir do momento em que se dá o tal encontro com os habitantes das montanhas, são pouco explorados quando havia uma enorme margem de manobra para nos mostrarem um pouco mais das personagens.
Por muito que nos fascinem as belas paisagens do Cáucaso filmadas por Julia Loktev, o resultado final acaba por se tornar de certa forma um objecto enfadonho e «Um Planeta Solitário» mais um daqueles filmes que bem podia ter perdido alguns minutos na sala de montagem.
Classificação: 2/5
«Um Planeta Solitário» parte de uma boa premissa e conta com uma realização competente de uma cineasta praticamente desconhecida, com apenas duas outras obras no currículo, uma das quais também chegou a passar pelo IndieLisboa há uns anos. Mas acaba por falhar quando podia dar um resultado melhor. Apesar da excelente química entre o par protagonista, a que se junta uma outra boa prestação de Bidzina Gujabidze, que interpreta o guia, o filme pouco mais é do que o vaguear das três personagens pelas montanhas georgianas, que custa a arrancar (apesar de muito andarem as personagens do filme), como se Julia Loktev quisesse enfatizar a força da paisagem perante a pequenez daqueles três viajantes. E os próprios dilemas que assolam as personagens, sobretudo a partir do momento em que se dá o tal encontro com os habitantes das montanhas, são pouco explorados quando havia uma enorme margem de manobra para nos mostrarem um pouco mais das personagens.
Por muito que nos fascinem as belas paisagens do Cáucaso filmadas por Julia Loktev, o resultado final acaba por se tornar de certa forma um objecto enfadonho e «Um Planeta Solitário» mais um daqueles filmes que bem podia ter perdido alguns minutos na sala de montagem.
Classificação: 2/5
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Duetos Cinéfilos #12
Música: La Femme d'argent (Air)
Filme: O Eclipse (Michelangelo Antonioni)
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domingo, 19 de maio de 2013
Photo, de Carlos Saboga (2012)
Casos de argumentistas que arriscam saltar da escrita para a realização não são raros no mundo do Cinema. O mais recente a entrar neste clube é Carlos Saboga, que começou nestas andanças ao assinar o argumento de «O Lugar do Morto», de António-Pedro Vasconcellos, e ultimamente esteve envolvido nos argumentos de dois filmes de cariz histórico: «Mistérios de Lisboa» e «As Linhas de Wellington». «Photo» é um filme completamente diferente destes dois últimos projectos de Raul Ruiz (o segundo acabou por ser terminado pela viúva do cineasta chileno, que faleceu antes do arranque das filmagens), mas a História não deixa de estar presente. Na sua estreia na cadeira de realizador Carlos Saboga conta-nos a história de Elisa (Anna Mouglalis), uma mulher que resolve ir à procura das suas raízes depois de tomar conhecimento da morte da mãe. Essas raízes, recuperadas através de inúmeras fotografias que encontra em casa da mãe, trazem-na a Portugal para tentar descobrir quem foi o seu pai. E é em Portugal que acaba por desenterrar um punhado de fantasmas que estiveram envolvidos na luta contra a ditadura de Salazar, todos com ligações à sua mãe na década de 1970.
Não sendo um grande filme, longe disso, «Photo» consegue ser uma estreia simpática para Carlos Saboga que não se espalha ao conciliar a História com H grande e a pequena história, de algumas das personagens que a viveram, mesmo que a partir do olhar de alguém que vem duplamente de fora: Elisa não só é uma estrangeira a desenterrar fantasmas longe de casa, mas também é alguém mais novo, que não viveu os factos relatados pelos homens que estiveram ligados à sua mãe. Entre ajustes de contas com o passado e diálogos que abordam os dilemas da geração que derrotou a ditadura (são vários os comentários que apontam a uma certa crítica a quem passou da idolatria a Mao a idolatrar ideologias completamente opostas para chegar a cargos políticos - só falta dar-lhes os nomes, mas quem conhece a realidade portuguesa conhecerá sem dúvida alguns exemplos), a primeira obra de Saboga enquanto realizador não desilude, pois não vai mais além do que lhe é pedido. Talvez o seu maior defeito seja essa simplicidade e falta de medo em arriscar ir um pouco mais longe. Não será um filme para ombrear com as grandes fitas portuguesas, mas passa no teste.
Classificação: 3/5
Não sendo um grande filme, longe disso, «Photo» consegue ser uma estreia simpática para Carlos Saboga que não se espalha ao conciliar a História com H grande e a pequena história, de algumas das personagens que a viveram, mesmo que a partir do olhar de alguém que vem duplamente de fora: Elisa não só é uma estrangeira a desenterrar fantasmas longe de casa, mas também é alguém mais novo, que não viveu os factos relatados pelos homens que estiveram ligados à sua mãe. Entre ajustes de contas com o passado e diálogos que abordam os dilemas da geração que derrotou a ditadura (são vários os comentários que apontam a uma certa crítica a quem passou da idolatria a Mao a idolatrar ideologias completamente opostas para chegar a cargos políticos - só falta dar-lhes os nomes, mas quem conhece a realidade portuguesa conhecerá sem dúvida alguns exemplos), a primeira obra de Saboga enquanto realizador não desilude, pois não vai mais além do que lhe é pedido. Talvez o seu maior defeito seja essa simplicidade e falta de medo em arriscar ir um pouco mais longe. Não será um filme para ombrear com as grandes fitas portuguesas, mas passa no teste.
Classificação: 3/5
sábado, 18 de maio de 2013
Cenas #1
A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovsky
«A Guerra é coisa para adultos» é provavelmente a frase mais vezes repetida em «A Infância de Ivan», uma das primeiras obras da curta carreira de Andrei Tarkovsky, um dos maiores nomes do cinema soviético. Curiosamente este espantoso filme sobre a guerra (e não de guerra) é protagonizado por uma criança órfã que vive durante a II Guerra Mundial e trabalha como espião para as tropas russas. Cheio de cenas marcantes, sobretudo nos sonhos que o jovem protagonista tem ao longo do filme, o encontro entre Ivan e um homem mais velho, que ocorre durante a fuga da criança quando lhe dizem que não o querem na frente para não morrer, é uma das sequências mais fortes de todo o filme. A viver numa casa em ruínas, o homem aguarda o regresso da esposa, morta por um soldado nazi. A sequência termina com o grupo de soldados a levar Ivan de volta, depois deste breve encontro. No final o homem, de novo sozinho, lança uma frase seca de desespero ao nosso encontro, antes de fechar a porta de uma casa que não existe.
Para quem não conhece esta obra-prima, esta está disponível inteira neste link.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Street Art meets Cinema #4
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Lá Fora #1
A pedido da Sofia Santos, autora do bastante recomendável Girl On Film, fui convidado a escrever um texto sobre uma personagem feminina de um filme no âmbito da iniciativa «Um Filme, Uma Mulher», que arrancou esta semana com a publicação de posts de vários bloggers de Cinema. A minha colaboração para a iniciativa foi publicada hoje e pode ser lida neste link. Espero que gostem da minha humilde participação (já foram publicados textos bem melhores, acreditem) e se não conhecem o blogue da Sofia, é favor adicionar aos favoritos.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Só Precisamos de Amor, de Susanne Bier (2012)
É difícil encontrar nos dias de hoje um filme romântico que não caia nos clichés da lamechice. E «Só Precisamos de Amor» tinha tudo para cair nessa armadilha do género, a começar pelo título. Mas o que nos dá a dinamarquesa Susanne Bier, no filme realizado após «Num Mundo Melhor», o vencedor do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro em 2010, é uma comédia romântica bastante sincera sobre uma cabeleireira que sofre de cancro e descobre, na véspera do casamento da filha em Itália, que o marido a trai com uma mulher bastante mais nova. A caminho do aeroporto tem um acidente que envolve o pai do futuro genro e a partir daqui nasce uma relação de amizade entre duas pessoas descontentes com o mundo à sua volta, mas com diferentes perspectivas sobre a vida.
«Só Precisamos de Amor» está a milhas de distância de outros filmes do género estreados recentemente em sala e que mais não fazem do que repetir, até à náusea, clichés e modelos que cansam. E assim de repente lembramo-nos de dois filmes visionados há poucas semanas: «O Grande Dia», de Justin Zackham, cujo elenco recheado de estrelas veteranas acaba por salvá-lo do descalabro, e «Fintar o Amor», de Gabriele Muccino, protagonizado por um Gerald Butler claramente em formato peixe fora de água (o actor está muito melhor em «Assalto à Casa Branca», um filme de acção estreado na semana passada onde um grupo de terroristas toma de assalto a residência oficial do presidente dos EUA).
Susanne Bier podia optar por contar a história da coitadinha, que sofre de uma doença complicada e ainda tem de aguentar com a traição do marido numa altura em que devia estar mais concentrada em travar a luta contra o cancro e apoiar a filha no momento mais feliz da sua vida. Mas não o faz, preferindo contar a história de uma forma em que nada parece forçado, apesar de o primeiro encontro entre o par protagonista (composto por dois actores que se complementam na perfeição: Trine Dyrholm e Pierce Brosnan) poder indicar que estamos prestes a entrar no perigoso mundo das comédias românticas cheias de lugares comuns. É esta a única vez em que tememos pelo regresso de Bier após o sucesso alcançado com o seu filme anterior, pois tudo o resto acaba por ser uma agradável surpresa, mesmo que este não seja o género favorito por estes lados. Mas quando nos surpreendem, como aconteceu com «Só Precisamos de Amor», acabamos por gostar.
Classificação: 3/5
domingo, 12 de maio de 2013
Adivinhem quem voltou
Depois de alguns meses de interregno enquanto revista on-line, apesar de continuar bastante activa no Facebook, a Take está de volta, com um design renovado e uma aposta em edições temáticas. A primeira destas edições já está on-line e é dedicada ao Festival de Cannes, que arranca dentro de dias e vai concentrar a atenção dos cinéfilos de todo o mundo. Além de artigos especiais sobre o certame, incluindo uma antevisão dos principais filmes que vão passar pela Croisette em 2013, esta edição da Take conta ainda com um conjunto de 15 críticas a alguns dos vencedores da Palma de Ouro, escritas pelos membros do Círculo de Críticos Online Portugueses (CCOP). Motivos mais do que suficientes para celebrar o regresso da Take em formato revista.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Transe, de Danny Boyle (2013)
Depois do brilharete alcançado na cerimónia de abertura da última edição dos Jogos Olímpicos, realizada em Londres no ano passado, Danny Boyle está de regresso aos filmes com algo mais negro do que o espírito das Olimpíadas. «Transe» é também o filme do realizador britânico posterior à aclamação obtida por «127 Horas» e «Quem Quer Ser Bilionário?», obras que o levaram a conquistar inúmeros óscares e nomeações aos prémios da Academia. Mas o lado mais humano destes anteriores filmes e dos Jogos Olímpicos fica de fora de «Transe» onde entramos, literalmente, dentro dos meandros mais escuros da mente humana. O protagonista é Simon (James McAvoy), o funcionário de uma leiloeira envolvido no roubo de um valioso quadro durante um leilão. O assalto corre de feição até que os cúmplices de Simon descobrem que afinal apenas têm nas mãos uma moldura sem tela. Para tentarem reaver o quadro vão atrás do funcionário da leiloeira, que entretanto ficara amnésico por ter levado uma pancada na cabeça. Será com a ajuda de uma hipnoterapeuta, contratada para entrar dentro da mente de Simon, que os criminosos vão tentar reaver o objecto roubado.
Contar mais pormenores sobre a trama de «Transe» é complicado, pois este é um daqueles filmes em que quanto menos se souber antes de entrarmos na sala, melhor. São tantas as reviravoltas e entradas e saídas de dentro da cabeça de Simon ao longo do filme que fazer spoilers é estragar toda a experiência de ver o filme. E se esta confusão, com inúmeras reviravoltas a acontecerem ao mesmo tempo, sobretudo na segunda metade do filme, quando o novelo se começa a desenrolar, podia funcionar contra «Transe», a verdade é que Danny Boyle dá conta do recado, não deixando pontas soltas.
O problema é que acaba por ter um final bastante fraco tendo em conta o material que tinha em mãos, dando a sensação que «Transe» fica bastante perto de ser um grande filme (e isso acaba por acontecer por diversas vezes ao longo do filme), mas acaba por ficar a meio caminho. É uma obra interessante a espaços, quase como que uma revisitação do filme Noir para os tempos modernos por parte do cineasta britânico (e esta não é a primeira vez que Boyle explora diferentes géneros, como aconteceu, por exemplo, com a ficção científica em «Missão Solar» ou o terror em «28 Dias Depois»), com Boyle a aproveitar a sua maneira de filmar para a adaptar ao género (e com bons resultados), mas que apenas peca por falhar na recta final, desperdiçando uma boa história com um final com muito pouco sal.
Classificação: 3/5
Contar mais pormenores sobre a trama de «Transe» é complicado, pois este é um daqueles filmes em que quanto menos se souber antes de entrarmos na sala, melhor. São tantas as reviravoltas e entradas e saídas de dentro da cabeça de Simon ao longo do filme que fazer spoilers é estragar toda a experiência de ver o filme. E se esta confusão, com inúmeras reviravoltas a acontecerem ao mesmo tempo, sobretudo na segunda metade do filme, quando o novelo se começa a desenrolar, podia funcionar contra «Transe», a verdade é que Danny Boyle dá conta do recado, não deixando pontas soltas.
O problema é que acaba por ter um final bastante fraco tendo em conta o material que tinha em mãos, dando a sensação que «Transe» fica bastante perto de ser um grande filme (e isso acaba por acontecer por diversas vezes ao longo do filme), mas acaba por ficar a meio caminho. É uma obra interessante a espaços, quase como que uma revisitação do filme Noir para os tempos modernos por parte do cineasta britânico (e esta não é a primeira vez que Boyle explora diferentes géneros, como aconteceu, por exemplo, com a ficção científica em «Missão Solar» ou o terror em «28 Dias Depois»), com Boyle a aproveitar a sua maneira de filmar para a adaptar ao género (e com bons resultados), mas que apenas peca por falhar na recta final, desperdiçando uma boa história com um final com muito pouco sal.
Classificação: 3/5
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